O futuro industrial

O que segue é um trecho final do livro A Sociedade Industrial e o seu Futuro, de 1995.


O FUTURO

Suponhamos que a sociedade industrial sobreviva às próximas décadas, que os bugs se resolvam, e que funcione a contento. Que tipo de sistema será? Consideremos algumas possibilidades.

Suponhamos primeiramente que os cientistas de computadores tenham sucesso desenvolvendo máquinas inteligentes que podem fazer tudo melhor do que os seres humanos. Nesse caso, provavelmente todo trabalho será efetuado por um vasto e altamente organizado sistema de máquinas e nenhum esforço humano será necessário. Qualquer dos dois casos pode ocorrer. Pode-se permitir às máquinas tomar suas próprias decisões sem supervisão humana ou o controle humano sobre as máquinas pode se tornar restrito.

Se se permite às máquinas tomar suas próprias decisões não podemos fazer nenhuma conjectura sobre os resultados, porque é impossível adivinhar como se comportarão. Só assinalamos que a sorte da raça humana estará a sua mercê. Pode-se argumentar que ela nunca será tão estúpida a ponto de entregar todo o poder às máquinas. Mas não estamos sugerindo que a raça humana voluntariamente transfira o poder às máquinas nem que estas se apoderem dele deliberadamente. O que sugerimos é que facilmente essa situação pode resultar em uma dependência tal que não haveria outra alternativa a não ser aceitar todas suas decisões. Como vivemos em um tempo em que a sociedade e os problemas que ela enfrenta se tornam mais e mais complexos e as máquinas mais e mais inteligentes, o ser humano tende a deixar que as máquinas tomem cada vez mais decisões por ele, simplesmente porque estas conduzem a melhores resultados do que aqueles. Eventualmente pode-se chegar ao ponto em que as decisões necessárias para manter o sistema em marcha serão tão complexas que os seres humanos serão incapazes de tomá-las inteligentemente. Nessa etapa, as máquinas possuirão o controle efetivo. A gente não poderá simplesmente desligá-las, porque estaríamos tão dependentes que isso seria equivalente ao suicídio.

Por outro lado, é possível conservar o controle humano sobre as máquinas. Nesse caso, o ser humano médio pode ter controle sobre certas máquinas, tais como seu carro ou seu computador pessoal, mas o controle sobre grandes sistemas de máquinas estará nas mãos de uma minúscula elite como ocorre hoje, mas com duas diferenças. Devido à melhora das técnicas, a elite terá maior controle sobre as massas e, como não será mais necessário o trabalho humano, as massas serão supérfluas, um ônus inútil no sistema. Se a elite for cruel, simplesmente decidirá exterminá-las. Se forem humanos, podem usar propaganda ou outras técnicas psicológicas ou biológicas para reduzir a taxa de nascimento até que se extingam, deixando o mundo à elite. Ou, se esta consiste em liberais bondosos, podem decidir desempenhar o papel de bons pastores do resto da humanidade. Para isto, se encarregarão de que todo mundo satisfaça suas necessidades físicas, que todas as crianças se criem sob condições psicologicamente higiênicas, que todo mundo tenha um passatempo sadio para mantê-lo ocupado e que qualquer que possa estar insatisfeito receba um «tratamento» para curar seu «problema». Obviamente, a vida estará tão vazia de sentido que as pessoas terão que ser desenhadas biológica ou psicologicamente para extirpar sua necessidade de afirmação pessoal ou «sublimá-la» em direção ao poder como um passatempo inofensivo. Estes seres humanos desenhados podem ser felizes em tal sociedade, mas a maioria não será livre. Será reduzida à categoria de animais domésticos.

Mas suponhamos agora que os cientistas de computadores não são afortunados desenvolvendo a inteligência artificial, mantendo-se portanto o trabalho humano necessário. Mesmo assim, as máquinas cuidarão de cada vez mais tarefas simples pelo que terá um excedente de trabalhadores humanos nos níveis mais baixos de habilidade. (Vemos que isto já está passando [1995!]. Há muita gente com dificuldade ou impossibilidade em encontrar um trabalho. Por razões intelectuais ou psicológicas não podem adquirir o nível de treinamento necessário para tornarem-se úteis no presente sistema). Para aqueles que estão empregados, as exigências serão cada vez maiores: precisarão mais e mais treinamento, mais e mais habilidade, e terão que ser inclusive mais fiéis, conformistas e dóceis, porque serão cada vez mais como células de um organismo gigante. Suas tarefas serão cada vez mais especializadas, pelo que seu trabalho estará, num sentido, fora de contato como mundo real, estando concentrados numa minúscula porção de realidade. O sistema terá que usar qualquer meio que possa, seja psicológico ou biológico, para fazer das pessoas seres submissos, para ter as habilidades que requeira o sistema e «sublimar» seu impulso pelo poder em alguma tarefa especializada. Mas a afirmação de que a gente de tal sociedade terá que ser dócil pode requerer reservas. Esta pode encontrar útil a competitividade, sempre que se encontrem maneiras de dirigi-la dentro de canais que sirvam às necessidades do sistema. Imaginamos uma sociedade futura na qual há uma competição inacabável pela posição de prestígio e poder. Mas muito pouca gente atingirá a cume, onde está o verdadeiro poder. Uma sociedade na qual uma pessoa pode satisfazer sua afirmação pessoal só empurrando a grande quantidade de outra gente fora do caminho e privando-os de SUA oportunidade pelo poder é muito repugnante.

Alguém pode imaginar cenários que incorporem aspectos de outras possibilidades que acabamos de tratar. Por exemplo, pode ser que as máquinas se encarreguem da maioria do trabalho que seja de importância real e prática, mas que se mantenham ocupados os seres humanos dando-lhes trabalhos relativamente triviais. Sugeriu-se, por exemplo, que um grande desenvolvimento das indústrias de serviços pode dar trabalho aos seres humanos. Assim, as pessoas passariam seu tempo limpando os sapatos uns dos outros, conduzindo uns aos outros de táxi [Uber], fazendo artesanato, preparando a mesa de outros, etc. Parece-nos uma maneira profundamente desprezível de viver, e duvidamos que muitos encontrem realização ocupando-se em labutas desprovidas de sentido. Procurarão outras perigosas saídas (drogas, crime, «cultos», grupos de ódio) a não ser que estejam desenhados biológica ou psicologicamente para adaptar-se a semelhante tipo de vida.

É desnecessário dizer que o cenário acima esboçado não esgota todas as possibilidades. Apenas indica o tipo de resultados que parecem mais prováveis. Mas podemos imaginar cenários inverosímeis que são mais aceitáveis do que os que acabamos de descrever. É totalmente provável que, se o sistema tecnológico-industrial sobreviver nos próximos 40 a 100 anos terá desenvolvido durante esse tempo certas características gerais: as pessoas (ao menos aquelas do tipo «burguês», que estão integradas no sistema e o fazem funcionar e que, portanto, têm todo o poder) serão mais dependentes que nunca das grandes organizações, estarão mais «socializados» do que nunca e suas qualidades físicas e mentais a um grau significativo (possivelmente muito grande) serão mais propriamente produto do condicionamento do que resultado da casualidade (ou da vontade de Deus, ou o quer que seja); e o que restar de natureza selvagem será reduzido a reservas, destinadas ao estudo científico e mantidas sob a supervisão e direção do cientistas (portanto não será nunca mais verdadeiramente selvagem). Em longo prazo (digamos em poucos séculos), é provável que nem a raça humana nem nenhum dos outros organismos importantes existam da forma como os conhecemos hoje, porque uma vez iniciada a modificação de organismos através da engenharia genética não há mais razão para parar em nenhum ponto em particular, de forma que as modificações provavelmente continuarão até que o homem e outros organismos tenham sido transformados completamente.

Seja lá como for, não há dúvida que a tecnologia está criando um novo ambiente físico e social radicalmente diferente do espectro ambiental que a seleção natural adaptou à raça humana, física e psicologicamente. Se o homem não se adapta a esse novo ambiente será redesenhado artificialmente, a não ser que se adapte através de um longo e doloroso processo de seleção natural. O primeiro caso é bem mais provável que o segundo.

Seria melhor desfazer-se de todo esse sistema fedorento e aguentar as consequências.

JBS: Agro é Tech, Agro é Pop, Agro é falcatrua da grossa

A JBS (Dona das marcas Friboi, Sadia e Perdigão) passou anos recebendo pesados investimentos do BNDES, dinheiro público do nosso bolso. Passou anos corrompendo agentes do Estado, comprando leis em beneficio próprio em troca de propina e financiamento de campanhas (de todos os grandes partidos). Lucrou muito com o desmatamento para criação de gado, com o latifúndio e todos os problemas que este modelo de exploração traz para o país.

Quarta entregou uma bomba que explode o Brasil, criando instabilidade política e econômica. Mas antes disso comprou muitos dólares, pois sabia que a moeda iria subir no outro dia.

A empresa simplesmente LUCROU especulando sobre o desastre que iria causar. Seus donos não sofrerão punição alguma, pois o acordo de delação premiada (e põe premiada nisso) os isenta de qualquer punição. No outro dia estavam em Nova York, negociando a abertura de capitais, a criação da “JBS Foods International” e transferência da sua sede para a Holanda.

E ainda chamam isso de Justiça? Esse é o saldo da criação das “campeãs nacionais” por parte dos sucessivos governos do PT? Esse é o tipo de acordo lesa pátria que o nosso sacrossanto Judiciário faz?

Num país sério esses malucos tavam sendo julgados por traição a pátria, com bens confiscados e qualquer operação de transferência de capitais congelada. Mas tão lá de boas em Nova York, curtindo uma champagne e vendo o circo pegar fogo, bem ao gosto da nossa “burguesia nacional” que de nacional não tem nada.

Detalhe: Fernando Meirelles, atual ministro da economia e figura de destaque em vários governos foi membro do conselho de administração da JBS.

Agro é Tech, Agro é Pop, Agro é falcatrua da grossa…

Sábado de Sol: Rap, Marcha da Maconha e Repressão Policial em Floripa

Foto: Marcha da Maconha Floripa

Sábado aconteceu a marcha da maconha em diversas cidades do Brasil. Você, “cidadão de bem” pode se perguntar porque raios as pessoas se juntem para protestar pelo uso de uma droga dado que tem tanta coisa errada no país.

Pois bem, já se perguntou se alguém retirasse o seu sagrado direito de beber aquela cerveja na sexta-feira com os amigos ou tomar aquele vinho com a patroa? Ou então fumar aquele cigarro depois do sexo ou tomar um remedinho que aquele médico te receitou para te deixar mais feliz e esquecer um pouco o quão insuportável é a nossa rotina nesse sistema cada vez mais maluco?

Pois bem, existem mais de 1.5 milhões de brasileiros (2012!) que curtem pegar uma planta que existe a milhões de anos, enrolar num papel e fumar. Esta planta, ao contrário do cigarro, por exemplo, tem até propriedades medicinais. O problema é que um tal de Estado (aquele que você é contra quando paga imposto) decidiu que todas estas pessoas não podem fazer isto, que é contra a lei. Uma lei arcaica, motivada por preconceito e questões políticas e comerciais, que está sendo revista no mundo inteiro porque este mesmo Estado se deu conta que não vale a pena continuar seguindo ela. E claro, porque muita gente também descobriu que dá para ganhar muito dinheiro com isto (empresários querem dinheiro e o Estado impostos).

Mas por aqui isto ainda não mudou. Por isto todos os anos milhares de pessoas resolvem marchar contra uma guerra estúpida que prende milhares de pessoas, na sua maioria pretas e pobres, que abastece facções criminosas de dinheiro e armas e gera corrupção. Que mata muito mais que o uso de drogas. E isto, com certeza, te afeta de alguma forma.

Pois bem, em Florianópolis não foi diferente. Mais de mil pessoas resolveram usar seu sábado para marchar. A marcha era pacifica, “paz e amor” como era de se esperar de tantos maconheiros andando na rua, ao contrário do que muitas pessoas costumam pensar sobre esse povo.

Até que houve um impasse, como é comum em manifestações populares. Policia Militar de um lado, manifestantes de outro. Nestes momentos ocorre uma negociação. Mas não houve negociação, pois o manifestante que tentou conversar com o servidor público responsável por sua proteção levou um empurrão, um chute na canela e spray de pimenta na cara. Logo depois os demais policiais atacaram com tapas, balas de borracha, cassetete e spray de pimenta. Uma menina foi agredida com um tapa por um sujeito muito maior que ela. Minha amiga quase foi pisoteada pela multidão em pânico e choque pela agressão gratuita.

Vídeo Jornalistas Livres

Foto: Ramiro Furquim

 

Foto: Ramiro Furquim

Pois bem, e ainda querem que a gente aguente esse mundo de cara?

Mais informações nas mídias alternativas:

#marchaDaMaconha #floripa

Novas Tecnologias, a Exploração Extraterrestre e o Futuro do Capitalismo

aprofundando um assunto mencionado em “uma aposta para o futuro”

Um dos assuntos mencionados em “Uma Aposta Para o Futuro”, que foi recebido com ceticismo ou inclusive com risos, foi a afirmação de que a colonização do espaço sideral poderia ser a única forma para o capitalismo sair das crises que tem gerado.

Gostaríamos de começar 2017 dedicando um pouco de atenção a essa afirmação.

Em 2017 será a entrega do Prêmio Lunar X, da Google. A corporação estadunidense (tão importante para o capitalismo do século XXI como era a Ford para o do século XX) oferece $20 milhões de dólares à primeira empresa que conseguir enviar uma nave à Lua, conduzi-la por 500 metros sobre sua superfície e transmitir imagens de alta definição para a Terra. Porém, isso tem que acontecer neste ano. Existem diversas equipes que estão trabalhando para conseguir realizar o desafio.

Uma delas é a Moon Express, que já conseguiu uma permissão legal do governo dos EUA para realizar explorações comerciais na superfície da Lua. Se chegar a ela – e já possui o financiamento necessário e um calendário de lançamentos de teste – não apenas ganharia o prêmio, como também levaria uma carga comercial que representaria o primeiro passo para iniciar um serviço de entregas de equipamentos à Lua, o que tornaria factível a mineração na superfície lunar de hélio-3 (um combustível valioso para os reatores nucleares).

Outra empresa, a Planetary Resources, diz que a mineração de metais e água em asteroides poderia ser um negócio de trilhões de dólares. Para ela, a água (e seu hidrogênio, que pode servir de combustível para naves espaciais) “é o petróleo do espaço sideral”. Essas não são palavras vazias. Ela é mais uma empresa com planos de negócios e a tecnologia necessária para começar a realizar as explorações imaginadas.

Em 14 de janeiro de 2017, a Space X voltou ao espaço. Ela é uma das empresas de Elon Musk (aquele que também está preparando veículos autônomos – ou seja, robóticos ou autoconduzidos – para venda comercial; a tecnologia já funciona sendo que o único obstáculo são as regulamentações legais), o bilionário que tem como cruzada pessoal a colonização de Marte nas próximas décadas. A empresa consertou um erro no desenho de seus foguetes e no dia 14 empreendeu um lançamento bem-sucedido. Lançou 10 satélites comerciais de um mesmo foguete, o qual, posteriormente, voltou à Terra automaticamente, aterrissando em um navio-drone da Space X que o esperava – com uma tripulação totalmente robótica – no meio do oceano Pacífico. Os foguetes autônomos e reutilizáveis (daria para dizer, ecológicos) são um dos fundamentos do plano de Musk para chegar em Marte. Ele já traçou um plano de negócios para desenvolver a tecnologia e conseguir os recursos para cumprir a missão.

Essas não são empresas isoladas ou insignificantes. O Estado também está prestando atenção à colonização extraterrestre. O Tratado do Espaço Sideral da ONU de 1966, que diz que não se poderia armar nem apropriar como território o espaço nem os objetos espaciais, e que qualquer atividade econômica teria que ser pacífica e para o bem de toda a humanidade. Em 2015, na Lei sobre a Competitividade de Lançamento Comercial Espacial (Commercial Space Launch Competitiveness Act), o governo dos EUA deu forma à questão legal, estabelecendo o direito legal para empresas privadas explorarem a Lua, os asteroides e outros objetos espaciais. A lei cede às entidades privadas o direito de explorar e vender o produto de tais objetos, mas não de se apropriar do objeto em si. Com efeito, se poderia minerar a Lua até esvaziá-la, mas as empresas privadas com suas fábricas robóticas não poderiam se considerar as proprietárias.

As bolhas

A bolha dos dotcom¹, que estourou no ano 2000, demonstra que se pode investir um capital imenso em empresas que não geram nenhum lucro durante vários anos antes que a bolha estoure (nesse caso, foram seis anos). De fato, ela não estourou até o momento em que uma novas corporações mostraram a capacidade de tornarem-se rentáveis e produtivas, corporações que hoje em dia estão entre as mais poderosas do mundo, como Google, Amazon e Facebook. Estamos no começo de uma fase de investimento e crescimento massivos no novo setor de transporte e exploração extraterrestre. Os empreendedores capitalistas deste setor possuem a vantagem de que a base logística para seu sonho (tudo o que está ligado com lançamento de satélites, com seus imprescindíveis usos militares e comerciais) já está corrente e rentável. De forma parecida, Colombo não teve que inventar os barcos de longas travessias nem os instrumentos de navegação (os quais já havia sido desenvolvidos pelos portugueses nos luxuosos circuitos de comércio do Oriente Hindu), mas simplesmente dar-lhes um uso mais extremo.

Elas têm alguns anos para produzir lucro com a exploração extraterrestre antes de que a bolha estoure. Se conseguirem, o capitalismo voltará a experimentar um crescimento intensivo e o momento de máxima vulnerabilidade das instituições e de máxima raiva popular terão passado.

A colonização extraterrestre não é mais um tópico da ficção científica. Mas falando em ficção científica, temos que assinalar também a grande produção de imaginários feita por Hollywood e outros centros de trabalho cultural, que joga nossa atenção para a colonização do espaço. Desde o século XIX, de vez em quando tem aparecido obras que concebem viagens para fora da Terra, mas a atual produção cultural frenética não é qualitativa nem quantitativamente comparável. Ela tem como efeito não apenas a normalização da atividade extraterrestre mas também nos acostuma a imaginar como seriam os primeiros passos para levar nossa civilização e a economia capitalista para além da força de gravidade da Terra.

Estamos no ápice de um acontecimento tão importante para o avanço do capitalismo e para a guerra contra a vida como foi a colonização das Américas. Como Bob Richards, chefe da Moon Express, disse “agora estamos livres para zarpar como exploradores do oitavo continente da Terra – a Lua – em busca de novos conhecimentos e recursos para expandir a esfera econômica da Terra para o bem de toda a humanidade.”

Diante dessa nova realidade em construção, o que temos que fazer?

A fetichização das novas tecnologias, muito comum em certos círculos de antagonistas sociais, é a auto-traição mais cruel possível, comparável à celebração racista e míope do colonialismo brindado por Marx e seus aduladores.

Luddismo

O luddismo² não tem que ser uma recusa de “toda a tecnologia” (entendida como toda ferramenta que os seres humanos têm desenvolvido nos últimos cem mil anos) e, de fato, os primeiros ludditas, tergiversados por Marx e outros progressistas, não rechaçaram as técnicas artesanais que lhes permitiam manter o controle sobre sua atividade produtiva, mas rechaçaram as imposições tecnológicas que beneficiaram os proprietários e que mudaram violentamente suas formas de vida. E rechaçaram também o poder policial que possibilitava aquelas imposições. Piratear, hackear e reapropriar tecnologias é uma corrente vital que poderia existir num conflito fértil com as correntes mais naturistas. Mas a adulação populista de toda nova tecnologia que poderia ser-nos de qualquer forma útil é um gesto de apoio acrítico ao Estado e ao capitalismo.

Um primeiro passo é a elaboração de uma crítica, e sobretudo de uma prática subversiva, com respeito às novas imposições tecnológicas sobre nossas vidas.

Também nos enfrentamos com a tarefa teórica de conceber como estas mudanças afetarão o capitalismo. Como afirmamos nas “23 teses”³, o regime de propriedade que define a sociedade de classes já está caducando. O espaço sideral – por exemplo, uma Lua sem proprietário, mas com muitos exploradores – poderia ser o terreno ideal para dar início a um novo regime de exploração, baseado no uso e acesso e não na propriedade (uma relação demasiado estável para o gosto do Estado e dos financistas).

Trabalhos e robôs

Outro assunto é o do trabalho. Diversos socialistas do século XIX confundiram-se e fizeram a previsão de que os avanços tecnológicos significariam a estreia de uma sociedade de ócio e abundância. Que não cometamos o mesmo erro teórico agora. O Estado inventa trabalho para nos ocupar. A rentabilidade é uma necessidade secundária. O trabalho produtivo no espaço sideral será sobretudo robótico. Isso faz parte da mesma tendência de robotização do trabalho industrial na Terra. Mas essa robotização não significou absolutamente uma redução na mão de obra humana em escala global. Significa, ao contrário, uma ampliação do trabalho assalariado humano nos setores de serviços, cuidados, trabalho sexual, engenharia e projeto. Os últimos dois serão o terreno dos trabalhadores privilegiados, o capital intelectual pelo qual competirão os Estados, os produtores de mercadorias etéreas da nova economia (estamos pensando nos empregados da Google e da Apple, das corporações antigas que se adaptaram à nova economia ou das pequenas startups, que produzem programas, estéticas e sistemas).

Os outros – serviços, cuidados, trabalho sexual – são tarefas geralmente de mulheres e que agora irão se tornar mais generalizadas. Qual será o efeito, para o patriarcado, da monetização e generalização das tarefas que antes não eram remuneradas e que definiam o que vinha a ser uma mulher e a segregação patriarcal? Deixamos a respostas às companheiras mais perspicazes, mas, de passagem, podemos apontar por um lado as novas leis em diversos países democráticos que cedem certos direitos às pessoas trans e, por outro, o contra-ataque das instituições patriarcais dentro do amplo auge da direita.

O primeiro acontecimento reconhece, de forma estritamente limitada, a mutabilidade do gênero, contradizendo assim uma das bases do patriarcado. Atualmente, a ala progressista do Estado apresenta o gênero como mais uma opção consumista, desativando assim os elementos mais conflitivos da transgressão de gênero. Mas é uma contradição que não pode se manter permanentemente. Portanto, é diferente da vitória do feminismo reformista que ganhou direitos políticos laborais para “a mulher” ao custo da perda dos espaços femininos autônomos, um quid pro quo4 que preservou o poder das instituições. Naquela mesma linha, podemos anotar que, contra o progresso atrasado da igualdade de salários, apoiado minimamente pelas instituições, as novas tarefas bem remuneradas estão todas no setor firmemente masculino da informática.

Escravidão

O capitalismo sempre dependeu da escravidão, mas a posição da escravidão dentro dos processos produtivos e reprodutivos vai mudando, muitas vezes como resposta à nossa resistência (abolição da escravidão visível dentro das democracias, movimentos feministas pela valorização do trabalho reprodutivo, lutas autônomas dentro das fábricas automobilísticas…). Aquilo que ontem era uma esfera de trabalho não remunerado, amanhã será assalariado e vice-versa. A tarefa feminina entra no mercado laboral e a tarefa produtiva volta a ser um trabalho não remunerado. Mas desta vez, os escravos são robôs e sua atividade é 100% legível 5, racionalizada e vigiada: estão sob o controle do Estado. A transição não será nem imediata nem homogênea. Seguramente, se passarão décadas antes que os setores da madeira, do chocolate e outros nos países mais pobres tornem-se rentáveis para que se substituam escravos humanos por robôs.

A tendência da robotização tornará inquestionável tanto nossa incapacidade de tomar os meios de produção quanto a impossibilidade dessa proposta. A maioria dos trabalhadores produtivos serão robôs e os outros conformarão a camada mais privilegiada de explorados. Essa realidade já se assentou em grande parte da produção automobilística, o processo industrial que definia a época anterior do capitalismo. As empresas automobilísticas mais modernas e as empresas de equipamentos informáticos já possuem fábricas majoritariamente robotizadas, fabricando produtos idealizados por engenheiros e projetistas bem remunerados, os trabalhadores com formação de alto nível mediante múltiplas carreiras, que entendem sua tarefa como a atualização do seu ser, gente ligada aos meios de produção e leal ao capitalismo.

Entretanto, isso será mais acentuado no espaço sideral, onde quase 100% da força de trabalho será robótica, empregada na mineração de combustíveis (energia verde como as células de hidrogênio e a nuclear) que propulsionarão o próximo ciclo de acumulação do capital. E aquele ciclo se definirá como a extensão dos circuitos produtivos a um novo território: a Lua, o cinturão de asteroides e Marte. Assim, o terreno será preparado para o ciclo seguinte de acumulação, no qual, este sim, poderá envolver mais mão de obra humana: a terraformação ou povoamento de Marte (seguindo o padrão identificado por Arrighi, um ciclo de expansão geográfica e institucional, seguido de outro ciclo que intensifica a exploração e o controle dentro do terreno anteriormente colonizado).

Os meios de produção são e sempre foram uma máquina de devastação. Não os queremos e agora nem poderíamos propor sua expropriação. No século XXI, não nos resta nenhum outro meio ao não ser reivindicar e praticar a recuperação dos conhecimentos e capacidades artesanais que colocam a vida e a sobrevivência, numa escala sã e natural, ao alcance de todo mundo. Mas, esse caminho de luta, como qualquer outro, já está cheio de armadilhas. A principal delas é a comercialização. Com mais consumidores privilegiados – os projetistas, programadores, arquitetos de sistemas -, pode-se sustentar mais produtores artesanais, sobretudo quando os gostos daqueles demonstram uma marcada preferência pelo “eco” e o local.

 

Agricultura

Consideremos o exemplo da agricultura. Num futuro próximo, é factível que a eficiência energética (quantas calorias de energia são necessárias para produzir uma caloria de alimento) se converta numa medida para dar valor ao uso do capital. Uma agricultura mais sustentável, mas eficiente quanto ao uso energético, teria que substituir as máquinas e o petróleo por mais mão de obra humana. Perante o perigo de uma população sem emprego, os capitalistas – e por que não, o Estado – sempre têm que inventar novas formas de trabalho. E a crise ecológica se mostra cada vez mais grave. Uma possível solução seria que o capitalismo fomentasse a agricultura local, aproveitando-se de suas novas capacidades de descentralização. Desse modo, daria grandes passos à frente para solucionar a crise ecológica (criada em grande parte pela agricultura industrial), daria emprego a mais pessoas, ofereceria aos consumidores privilegiados um produto-fetiche e colonizaria a agricultura de pequena escala, transformando-a em uma atividade legível e comercial quando antes sempre foi uma fonte de resistência e autonomia.

Nos países mais pobres, na ausência de muitos consumidores privilegiados e um Estado forte, as ONG poderiam administrar o processo, e na verdade, já estão o fazendo. Nos EUA, onde a população envolvida numa agricultura hiper-industrializada já havia caído abaixo de 1%, esta mudança para o crescimento agrícola mediante a produção em pequena escala já está se produzindo. Feiras de Produtores, sobretudo nas zonas de muita produção informática, já saíram do esquecimento e estão fazendo cada vez mais parte do cotidiano.

Ludismo

O novo artesanato, para ser subversivo, teria que ser ludita, baseado em práticas de sabotagem e em redes ilegíveis (quer dizer, opacas vistas de cima), de trocas qualitativas (quer dizer, economias de dádivas, como nas coletivizações mais radicais durante a Guerra Civil Espanhola). Mas hoje em dia, as máquinas mais relevantes para serem sabotadas não são os teares mecânicos, mas as máquinas sociais, as que mediam a comunicação, produzem e controlam as redes de socialização e sociabilidade, e definem uma maneira de ser no mundo.

Não podemos continuar utilizando argumentos de conveniência. O capitalismo também é mau nos momentos de bonança; a tecnologia capitalista também é má quando funciona bem e não provoca nenhum desastre específico. O único caminho de ataque discursivo que nos resta é o enfrentamento direto com a espiritualidade cristã que tanto a ciência como o socialismo herdaram: o mundo, o universo, não existem para a nossa exploração. Não existe nenhum argumento racionalista (nem dentro dos parâmetros da corrente mais radical do liberalismo, que é o veganismo) contra a mineração da Lua. Nenhum ser humano será ferido, ou outro animal, e segundo o racionalismo, todo o resto é matéria morta. Os únicos argumentos sólidos contra as novas atrocidades são espirituais. São argumentos que afirmam que a Terra é nossa mãe e que deveríamos nos adaptar aos processos naturais em vez de modelá-los segundo nossos caprichos arrogantes; que encher a Terra ou a Lua de buracos em busca de minerais valiosos é tão imperdoável como massacrar um povo inteiro. Aqueles que se aproveitaram de argumentos científicos para justificar o genocídio, a escravidão, a mineração e o corte indiscriminado de florestas inteiras são os mesmos, e suas instituições são as mesmas, que aqueles que hoje em dia estão celebrando a iminente conquista da Lua e de Marte. E as tecnologias que nos levarão até lá (os foguetes) foram desenvolvidas pelos nazistas no curso do mesmo Holocausto que o liberalismo tão hipocritamente repudia, sem nunca repudiar seus frutos. Mas temos acatado o humanismo durante tanto tempo que já não podemos levantar nossas vozes em protesto contra uma atrocidade onde não haverá vítimas humanas. Mas nem as pessoas desgraçadas que não acham ruim em si a mineração da Lua podem negar que qualquer introdução de novos recursos à maquinaria capitalista irá acelerar os processos que estão criando uma sociedade-prisão aqui na Terra.

A escolha é entre o ecocentrismo e o totalitarismo.

– Josep Gardenyes
Janeiro de 2017

 

Notas da tradução:
¹ A bolha da Internet ou bolha das empresas ponto com foi uma bolha especulativa criada no final da década de 1990, caracterizada por uma forte alta das ações das novas empresas de tecnologia da informação e comunicação (TIC) baseadas na Internet. Essas empresas eram também chamadas “ponto com” (ou “dot com”), devido ao domínio de topo “.com” que consta no endereço de muitas delas na rede mundial de computadores.

No auge da especulação, o índice da bolsa eletrônica de Nova Iorque, a Nasdaq, chegou a alcançar mais de 5000 pontos, despencando pouco tempo depois. Considera-se que o auge da bolha tenha ocorrido em 10 de março de 2000. Ao longo de 2000, ela se esvaziou rapidamente, e, já no início de 2001, muitas empresas “ponto com” já estavam em processo de venda, fusão, redução ou simplesmente quebraram e desapareceram. Wikipedia.org.

² O ludismo (ou luddismo) foi um movimento que ia contra a mecanização do trabalho proporcionado pelo advento da Revolução Industrial. Adaptado aos dias de hoje, o termo ludita (do inglês luddite) identifica toda pessoa que se opõe à industrialização intensa ou a novas tecnologias, geralmente vinculadas ao movimento operário anarcoprimitivista.

As reclamações contra as máquinas e a sua substituição em relação à mão de obra humana, já eram normais. Mas foi em 1811, na Inglaterra, que o movimento operário estourou, ganhando uma dimensão significativa.

O neo-ludismo é um movimento sem lideranças formado por grupos sem afiliação que resistem às tecnologias modernas e pregam o retorno de algumas ou todas as tecnologias para um estágio mais primitivo. As pessoas neo-luditas são caracterizadas por uma ou mais das seguintes práticas: abandono passivo do uso da tecnologia, ataque àqueles que produzem tecnologia, defesa de uma vida simples, ou sabotagem de tecnologia. O movimento neo-ludista moderno possui conexões com o movimento anti-globalização, o anarco-primitivismo, o ambientalismo radical e a Ecologia Profunda (Deep Ecology). Wikipedia.org
³ 23 Teses se refere ao livro “23 Teses em Torno da Revolta” livro ainda sem tradução para o portuguê que Gardenyes é co-autor.
4 Quid pro quo é uma expressão latina que significa “tomar uma coisa por outra”. Refere, no uso do português e de todas as línguas latinas, uma confusão ou engano. Wikipedia.org
5 O termo “legível” parece se referir à forma como o poder no topo de uma hierarquia consegue ver ou ler os processos da sua base e alterá-los ou cooptá-los.

Um salve para a Vagabundagem

Um salve pros vagabundos e vagabundas!

Hoje, dia 28 de abril, vagabundos de todo o Brasil participarão da greve geral em protesto contra as reformas trabalhista e previdenciária.

Ainda bem que existem vagabundos para defender os seus direitos. E, claro, os meus também. Afinal, os vagabundos tiveram papel importante na construção dos direitos em todo o mundo.

Foram vagabundos que, com as greves do início dos anos 80, forçaram os grandes empresários a apoiar a luta pela volta da democracia, pondo fim a uma ditadura de 20 anos.

Eram também vagabundos aqueles hippies que iniciaram uma revolução cultural nos anos 60 e culminaram na emancipação feminina e no respeito ao direito das minorias.

Naquela época, lá nos Estados Unidos, um pastor vagabundo liderou milhares de outros vagabundos pelo reconhecimento dos direitos dos negros e pelo fim do apartheid naquele país.

Por falar em apartheid, quem não se lembra do vagabundo que ficou preso na África do Sul por quase toda sua vida e que acabou derrubando um regime racista com suas greves e boicotes a produtos produzidos pelos brancos?

Foram também vagabundos que, no início do século XX, iniciaram uma onda de manifestações na Europa e na América pelo reconhecimento dos direitos trabalhistas e pela redução da jornada de trabalho.

Assim como as vagabundas que foram queimadas em uma fábrica norte-americana chamaram a atenção do mundo para a equiparação dos direitos femininos àqueles dos homens. Foi em um 8 de março, mais tarde reconhecido como dia internacional da mulher.

Se eu fosse lembrar de todos os vagabundos que lutaram e perderam a vida para que eu e você tivéssemos uma vida melhor, não bastaria um textão na internet. Eu precisaria escrever uma enciclopédia.

Portanto, termino com uma pequena frase: ainda bem que existem os vagabundos!
(Fernando Antinarelli )

P.S.: por mais vagabundagem, por favor!

Ironicamente

“A ideia de que a internet e o seu modo anárquico destruiriam o poder das grandes empresas tradicionais de comunicação fracassou. No geral, são estas que pautam a internet. Só hoje, metade dos posts da minha linha do tempo foram sobre o que aconteceu no Silvio Santos e no BBB. E não que os meus amigos e amigas estejam errados em utilizar a pauta para debater questões culturais relevantes. O erro não é pessoal, é sistêmico.” Publicado, ironicamente, por uma pessoa no Facebook. Copiado, ironicamente, por uma pessoa no Facebook.

Relato de agressão da Policia Militar de Santa Catarina aos Foliões em Santo Antônio de Lisboa

Santo Antônio de Lisboa, madrugada de terça de Carnaval. Por volta das 2 e 30 da manhã acabava a noite de folia após um bonito desfile de 25 anos do bloco Baiacu de Alguém, que no seu samba enredo não se omitiu e narrou alguns dos problemas e lutas de Desterro: a falta de transporte público integrado, o plano diretor, a moeda verde, a luta pela Ponta do Coral e pela Ponta do Sambaqui.

Todos já estavam indo para casa, as últimas barraquinhas fechavam. Parado na rua de paralelepípedos onde antes só havia festa e folia vi a Policia Militar começar a se movimentar e fechar a rua, formando um bloco. Eram uns 15 policiais, uns 3 da cavalaria e o restante a pé. De uma hora para outra eles começaram a avançar pela rua, cassetetes em punho, marchando naquela formação típica de legião romana, tão comum de se ver em manifestações populares.

Eles não pediam licença, empurravam quem não saísse das ruas sem que as pessoas fizessem uma mínimo esboço de violência. Quando chegaram perto da igreja vi alguns Policiais agredirem um rapaz com cacetadas. Foi então que alguém puxou o coro do “Não acabou, tem que acabar, eu quero o fim da Policia Militar”, que foi ecoado por muitos na praça. Um Policial foi até uma menina que gritava as palavras de ordem e começaram uma discussão. Um tempo depois senti os olhos lacrimejando, pois começaram a borrifar gás de pimenta na praça, como se estivessem dedetizando o lugar.

Na volta para o carro escutei um relato de um rapaz que contou que jogaram spray de pimenta próximo aos banheiros químicos com gente dentro. Minha amiga, moradora do bairro me contou que todo ano é a mesma coisa. Que a Polícia atua desta forma para “encerrar” a festa, e que foi embora dali logo que percebeu a movimentação dos “homens da lei”.

Foram cenas lamentáveis e desnecessárias de brutalidade e estupidez do Estado. Qual a finalidade desta brutalidade? Se os organizadores sabem que isso acontece todos os anos, por que não se manifestam? O clima de insegurança em outros anos justifica tamanha agressividade?

Em temerários tempos de “Ordem e Progresso” os blocos de rua do Carnaval, essa festa anárquica por excelência seguem sendo um incomodo para ordem vigente. Mesmo em tempos em que uma única marca de cerveja compra a cidade por alguns dias, em tempos de cercadinhos em espaços públicos, de pulseirinhas VIPs, de peixadas e feijoadas de gente besta e esnobe.

Como diria Leminski: “Ainda vão me matar numa rua. Quando descobrirem, principalmente, que faço parte dessa gente que pensa que a rua é a parte principal da cidade”.

A briga dentro do Golpe

Alguns pitacos, Operação Abafa a Jato em curso: O editorial do Estadão malhando o Dallagnol, o Gilmar Mendes reclamando com um certo “atraso” das longas prisões preventivas da República de Curitiba, a indicação de Moraes e a revolta de agentes da PF contra o diretor-geral mostram que parte do status-quo se volta contra a operação. Afinal, ela já atingiu parte de seus objetivos: derrubar o governo eleito, destruir o PT e aniquilar a imagem pública da Petrobras, abrindo caminho para as privatizações e desmanche da política de conteúdo nacional. Só não conseguiram prender o Lula ainda, para garantir que se elegem em 2018. Levar a operação em frente agora vai levar todo o governo Temer e praticamente todos os partidos para o buraco e ferrar ainda mais a economia.

A ordem agora é segurar a onda para que consigam aprovar rapidamente a reforma da previdência e trabalhista, já que a PEC55 já passou. Resta saber até quando setores do Judiciário e da Policia Federal vão aguentar quietos, e até quando os grandes egos da República de Curitiba vão aguentar sem o brilho dos holofotes. Pode ser que a briga dentro do golpe traga bons frutos e escancare de vez toda a podridão, jogando mais lenha na fogueira.

As máscaras vão caindo

Vamos olhar para o lado bom das coisas. O lado bom dos últimos dias é que está tudo escancarado. A nomeação de Alexandre de Moraes foi narrada de forma protocolar pela Globo no JN, sem menção ao histórico autoritário e de violação de direitos humanos do ministro, apenas uma “pequena” controvérsia por ele ser filiado ao PSDB. No STF então nenhuma crítica, o nome foi aceito com tranquilidade pelos “guardiões da constituição”. Globo, STF, Temer, PSDB, coxinhas e fascistas, todos dançando conforme a música. Nomeação coerente com esse governo e esses tempos sinistros. Sem disfarces, a seco, sem cuspe.

Observação: Sem contar que ele foi advogado do Cunha, e existem suspeitas de ter defendido o PCC. Mas prefiro não ficar queimando advogados em tempos cada vez mais autoritários. Em breve podemos precisar deles.